segunda-feira, 28 de junho de 2010

O retorno final ao hospital, e o inicio de uma longa jornada.


Retornei ao médico nesse domingo, de manhã, para fazer o ultra-som pedido pelos médicos na ultima curetagem. Cada vez que chego perto daquele lugar, meu coração acelera, eu tento não pensar em tudo que aconteceu, mas nada adianta... passando pelos corredores eu sinto como se estivesse vivendo o mesmo que das ultimas vezes.
Tentei colocar na minha cabeça a cada instante que passava ali, que era a última vez que estaria naquele lugar, que finalmente minha dor física ia acabar, e que a pressão psicológica que eu sofria enquanto ficava ali, também.

Fiz o ultra-som, que demorou bastante, pois contei a médica que faz o procedimento tudo o que aconteceu, e ela fez uma "busca completa" e demorada para ter certeza de que não havia nada ali dentro, nem um mísero coágulo de sangue.

Quando o resultado saiu, relaxei tanto o corpo que quase caí no chão. Estava tensa e desesperada só de pensar em ficar ali denovo.

Meu útero estava limpo... finalmente...

...mas ao mesmo tempo que pensava "graças a Deus meu útero está limpo, graças a Deus não preciso mais ficar aqui!" lutava contra o pensamento que tinha logo em seguida: "é.... não tem nada aqui, ele foi mesmo embora..."

Voltei pra casa, fui direto para o banho, e desabei debaixo do chuveiro... chorei feito uma criança, tentei liberar todo o stress e toda a agonia que passei em poucas horas (daquela manhã) dentro daquele hospital, e tentei me convencer de que finalmente tinha acabado, mas na verdade estava chorando porque não acabou, estava chorando porque achei que quando soubesse que não precisaria mais voltar naquele hospital me sentiria mais tranqüila e teria mais forças pra lutar, pra me levantar... mas me enganei.
Nada mudou depois de ver que meu corpo já pode se recuperar desse trauma físico. Talvez eu só esteja mais aliviada por não ter que ir mais lá, e não ficar mais pensando: "será que vou ter que fazer outra curetagem?".

(...)

No domingo, antes de ontem, mesmo dia em que saí do hospital com essa "boa noticia", fui trabalhar e logo em seguida fui para a casa do meu namorado passar a noite. Passamos uma ótima noite juntos, demos risadas, ele fez um jantar maravilhoso, pude ingerir um pouco de alcool depois de MUITO tempo sem, consegui esquecer por alguns momentos a minha dor, e tive uma noite razoável de sono (coisa que não tenho há tempos).

Acordei, ainda com aquela sensação de quem consegue descansar e esquecer a dor depois de muito tempo... mas não durou muito.
Saí para trabalhar, e assim que desci do ônibus vi uma coisa que me puxou de volta para a realidade: uma mulher grávida (de uns 7 meses, a barriga já estava bem grande), com um sorriso enorme no rosto, com uma camiseta do Brasil que na barriga tinha o desenho de um menininho, uma seta para a barriga e uma frase dizendo: "eu também estou torcendo pelo nosso time!"

Lembrei de tudo, lembrei de uma coisa que dizia pro meu namorado, quando ainda estava grávida. Eu falava para ele que na copa eu já estaria com uma barriga visível, e brincava dizendo que ia passar um belo stress torcendo com o nosso filho torcendo junto. Também fiquei me imaginando com a camiseta do Brasil, de barrigão, eu ia ficar linda!

Calculei a data de nascimento do Miguel, e em todos os lugares que calculei deu 19 de Dezembro, dia do aniversário do meu pai. Até mesmo um médico virtual me disse que seria na semana do dia 19 de Dezembro. No mesmo momento em que me lembrei de tudo que ia passar com o Miguel na copa do mundo, me lembrei do possível dia de seu nascimento. Como vou ficar quando esse dia chegar? Como vou ficar no aniversário do meu PAI??? Como vou abraça-lo e dizer "parabéns!" se deveria ser o contrário? Que presente vou dar a ele, que seja melhor do que um neto lindo e cheio de saúde?
E o natal? Que imaginei meus filhos em meus braços, com poucos dias de vida, e eu e meu namorado com aquele sorriso bobo no rosto, e todos paparicando ele... como vou passar?
E o aniversário do meu namorado, que é dia 30? Que presente vou dar a ele, se perdemos o maior presente de nossas vidas? Como vou olhar para ele e deseja-lo parabéns?

Foi nesse momento que meu mundo caiu. Durante esse tempo todo usei minhas forças para ignorar grávidas que passavam por mim, crianças recém-nascidas nos braços de uma mãe, lojas de roupinhas de bebê (que são MUITAS!), e tudo que me lembrasse o que aconteceu. Mas hoje eu percebo que isso não vai ser possível, que vou ter que aprender - na marra - a viver com isso.

Meu DEUS! Não sei se vou sobreviver a Dezembro... quero fugir do ano novo, do natal, do aniversário do meu pai e do meu namorado. Quero dormir no fim de novembro e acordar no meio de Janeiro, para não ter que passar por esses dias.

A dor é mais constante agora, que sei que não posso mais ignorar e que tenho que aprender a viver com isso, cada pequena coisa me lembra do que aconteceu.
- Onde eu trabalho, usa-se aquelas tocas higiênicas descartáveis, que eu usei durante a cirurgia.
- Uma colega de serviço está achando que está grávida, e me fez ir com ela na farmácia comprar o teste de gravidez.
- Outra colega de serviço tem 2 filhos, e ela não pára de falar neles, ainda hoje eles foram lá, e são realmente lindos e bem educados.
- Quando tomo banho evito ficar passando a mão na barriga.
- Meu namorado observou que eu só durmo com a mão na barriga. E eu reparei que não consigo mais dormir de bruços, me incomoda muito.
- Minha irmã tem um filho de apenas 2 anos chamado Levi, meu sobrinho lindo e maravilhoso, que eu tanto amo. Cada vez que vejo ele, ele fica gritando e brincando comigo "tia... tia... tia", e de vez em quando, pra me provocar e me fazer correr atrás dele pra brincar ele fala: "caol, caol, caol" (ele não consegue falar "Carol", só "Caol"), e eu saio correndo atrás dele falando "Não é "Caol", é "tia"!). Tudo isso só me faz imaginar como seria com o Miguel. É um pouco perturbador me sentir assim com meu sobrinho.

Enfim... posso continuar até não ter mais espaço na página, mas acho que isso já é o suficiente pra mostrar como as coisas ao meu redor me fazem lembrar de tudo.

Agora, tudo que eu posso fazer é esperar, esperar e continuar lutando para ter uma saúde firme, lutando para conseguir ter um pouco de distração e alegria que eu preciso, lutando para manter meus estudos... Para mais tarde eu conseguir engravidar sem sentir tristeza por tudo isso, sem me sentir mal, e com minha saúde boa o suficiente para mim não pisar num hospital até o momento do parto.

Eu sei que vai chegar o momento em que essa dor vai virar apenas SAUDADE...

...e esse vai ser o momento em que eu vou poder dormir e descansar, olhar grávidas e bebês sem sentir dor, e poder sorrir, ser feliz, brincar, e falar disso sem sentir remorso, apenas SAUDADE do anjo que estará SEMPRE comigo e com meu amor.


Que DEUS proteja meu anjo e fale para ele que essa tristeza toda não é culpa dele, e que vai passar.

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